O episódio com o carro metralhado por policiais representa uma lição que deve ser decorada pelos que fazem o governo do Estado e a Policia, claro. O caso não significa só despreparo da PM, traz embutido no ato o despreparo também dos governantes, que não conhecem profundamente (melhor, cientificamente) o fazer segurança e policiar. Segurança (ensina Houaiss) é um substantivo feminino que significa:
1. ação ou efeito de tornar seguro; estabilidade, firmeza, seguração;
2. ação ou efeito de assegurar e garantir alguma coisa; garantia, fiança, caução;
3. estado, qualidade ou condição de uma pessoa ou coisa que está livre de perigos, de incertezas, assegurada de danos e riscos eventuais, afastada de todo mal;
4. estado, condição ou caráter daquilo que é firme, seguro, inabalável, ou daquele com quem se pode contar ou em quem se pode confiar inteiramente;
5. situação em que não há nada a temer; a tranqüilidade que dela resulta;
6. conjunto de processos, de dispositivos, de medidas de precaução que asseguram o sucesso de um empreendimento, do funcionamento preciso de um objeto, do cumprimento de algum plano etc.;
7. certeza, infalibilidade; convicção; evidência;
8. força ou firmeza nos movimentos; firmeza de ânimo, resolução, afoiteza, autoconfiança;
8. atitude de confiança nos próprios recursos, presença de espírito, autodomínio, geralmente aliada à certeza de pertencer a um grupo social valorizado ou de ser respeitado em seu grupo social;
9. estado em que a satisfação de necessidades e desejos se encontra garantida.
Claro que existem outros significados (Segurança nacional, do trabalho, por exemplo) e quando ao termo segurança se agrega a palvra pública (dever do Estado de criar condições para que o indivíduo possa viver em comunidade, livre de ameaças, em liberdade e bem-estar) a compreensão deve se alargar, o que nem sempre ocorre. Para se chegar a um estado de segurança é necessário policiar e aí o que acontece é pior ainda. Policiar é um verbo transitivo direto que significa vigiar ou fiscalizar, manter em ordem, por meio do trabalho da polícia ou de acordo com os regulamentos policiais. Por exemplo, policiar a cidade para assegurar a paz de seus moradores. Pode ser também vigiar com atenção, com aplicação; zelar ou tornar civilizado; civilizar e, ainda, não permitir que (algo) se produza ou se manifeste (fora de si ou em si mesmo); reprimir(-se), conter(-se).
O problema é que a questão da segurança foi tratada nos últimos meses sempre com muita jactância e pouca realização. Não se transforma uma realidade apenas com discurso ou com perfumaria. Vestir os policiais com farda de grife (houve até desfile de moda no Centro Dragão do Mal, digo do Mar para a escolha do estilista) e dotar o aparato policial de Hilux SW4 automática com equipamentos de última geração só criaram na cabeça dos policiais a falsa idéia de que eles estavam literalmente donos da situação. O excesso de confiança e a cobrança por resultados para apresentar à mídia deram a corda que faltava. O resultado foi a tragédia que se viu. E só agora o governador, deputados e o Fábio Campos entenderam que a polícia é desprerada. Adianta dar um jato moderno para um piloto de teco-teco. Não se arruma uma casa pintando a fachada para aparecer bem na fotografia.
Todos nós torcemos, como o Fábio Campos (colunista de política do O Povo) para que o programa Ronda de Quarteirão dê certo. Deixando lado a excessiva propaganda, é uma iniciativa louvável, mas deve começar com o aprimoramento do homem, com o pagamento de melhores salários e com o aumento do efetivo, pelo menos, em seis mil homens. O Ronda deve ser um programa de quatro anos e não um programa emergencial. O pior é que quando os governantes erram são os cidadãos que pagam a conta.
sexta-feira, 28 de setembro de 2007
quinta-feira, 27 de setembro de 2007
Pesquisas Sobre Sucessão de Fortaleza
Duas pesquisas sobre intenção de voto para a Prefeitura de Fortaleza estão circulando clandestinamente entre os líderes partidários. O objetivo é apresentar o cacife de cada um que deseja ou que está recebendo corda para ser candidato. Uma foi realizada IPESP e teria sido contratada pelo senador Tasso Jereissati. A outra foi realizada pelo Instituto GPP, do Rio de Janeiro, e teria sido contratada pelo DEMOCRATAS.
Na pesquisa do IPESP, pelo pouco que conseguimos apurar, Moroni aparece com 34% das intenções de voto (na outra, do mesmo IPESP, ele obteve 36%, o que significa uma variação amostral e não queda), enquanto Luizianne ficou com 18% (na anterior, ela ficou com 22%, o que já ultrapassa o erro amostral de 3%, caracterizando um declínio). Patrícia Gomes, agora Sabóia, entra pela primeira vez no rol de candidatos e aparece na pesquisa com 13%.
Na pesquisa do GPP, que foi realizada com um leque maior de candidatos, Moroni aparece com 33.6, Luizianne com 18.1, Patrícia com 10.7, Heitor Férrer com 7.1, Edson Silva com 6.9, Chico Lopes com 5.1, João Alfredo com 2.8, Alexandre Pereira com 0.5 e Gastão Bittencourt também com 0.5. 8.8% são ninguém, brancos e nulos e 5.9% não sabem ou não responderam.
O GPP faz uma pergunta diferente ao eleitor de Fortaleza, que não é vista com freqüência nos questionários de outros institutos: “na sua opinião, Luizianne Lins merece ser reeleita para um novo mandato de mais 4 anos, ou ela já teve sua chance e agora é hora de dar vez a outro, como Prefeito?”. Resposta do eleitor, conforme o GPP:
Já teve sua chance............................. 67,2
Merece ser reeleita............................ 28,8
Não sabe/Não respondeu.................. 4,0
Na pesquisa do IPESP, pelo pouco que conseguimos apurar, Moroni aparece com 34% das intenções de voto (na outra, do mesmo IPESP, ele obteve 36%, o que significa uma variação amostral e não queda), enquanto Luizianne ficou com 18% (na anterior, ela ficou com 22%, o que já ultrapassa o erro amostral de 3%, caracterizando um declínio). Patrícia Gomes, agora Sabóia, entra pela primeira vez no rol de candidatos e aparece na pesquisa com 13%.
Na pesquisa do GPP, que foi realizada com um leque maior de candidatos, Moroni aparece com 33.6, Luizianne com 18.1, Patrícia com 10.7, Heitor Férrer com 7.1, Edson Silva com 6.9, Chico Lopes com 5.1, João Alfredo com 2.8, Alexandre Pereira com 0.5 e Gastão Bittencourt também com 0.5. 8.8% são ninguém, brancos e nulos e 5.9% não sabem ou não responderam.
O GPP faz uma pergunta diferente ao eleitor de Fortaleza, que não é vista com freqüência nos questionários de outros institutos: “na sua opinião, Luizianne Lins merece ser reeleita para um novo mandato de mais 4 anos, ou ela já teve sua chance e agora é hora de dar vez a outro, como Prefeito?”. Resposta do eleitor, conforme o GPP:
Já teve sua chance............................. 67,2
Merece ser reeleita............................ 28,8
Não sabe/Não respondeu.................. 4,0
quarta-feira, 26 de setembro de 2007
A História Política de Uma Família - P.4.a
No capítulo que foi publicado na última segunda-feira neste blog mostramos a família Ferreira Gomes e agregados conquistando o poder político. No capítulo de hoje vamos mostrar as campanhas presidenciais de Ciro Ferreira Gomes e a volta ao Ceará. Veja, a seguir, o quarto capítulo.
A História Política de uma família - capítulo IV
A MORTE PELA BOCA
(primeiro ato)
As duas eleições do período pós-ditadura (1989 e 1994) ocorrem em clima de ambiente midiático[1]. Chega a terceira eleição (1998) e este terceiro experimento eleitoral acontece em ambiente semelhante, mas com algumas diferenças marcantes. Seria, como apontam alguns pesquisadores, o momento em que a transição parecia ter se completado. A primeira eleição pós-democratização foi marcada pela inovação e a estratégia de mídia, pelo entusiasmo, pela motivação depois de 25 anos sem votar em presidente. O pleito foi “diluído” em mais de vinte candidatos. Um dado importante é que todos se colocavam em oposição ao governo que se encerrava, de José Sarney (PMDB). Nada chega a ser surpreendente: o fracasso econômico do Plano Cruzado, com altas taxas de inflação e pífios índices de crescimento econômico, fazia com que 68% da população considerassem o governo Sarney como ruim ou péssimo (Pesquisa Datafolha de setembro de 89).
Só para marcar aquele momento importante do nosso processo de redemocratização, utilizamos a clivagem ideológica adotada por Singer[2] para agrupar os candidatos mais relevantes: esquerda: Lula, do PT; Leonel Brizola, do Partido Democrático Trabalhista; e Roberto Freire, do Partido Comunista Brasileiro. Centro: Mário Covas, do Partido da Social Democracia Brasileira (fundado a partir de uma cisão do PMDB em 1988); Ulysses Guimarães, do PMDB; e Guilherme Afif Domingos, do Partido Liberal. Direita: Paulo Maluf, do PDS; Aureliano Chaves, do Partido da Frente Liberal (fundado a partir de uma cisão do PDS em 1985); Ronaldo Caiado, da União Democrática Ruralista; e Fernando Collor de Mello, do Partido da Reconstrução Nacional. Os outros candidatos somados obtiveram menos de 3% dos votos válidos. O resultado final do primeiro turno consagrou Collor em primeiro lugar, com 30,4% dos votos válidos (mais de vinte milhões e meio de votos), e Lula em segundo, com 17,1% dos votos válidos (mais de onze milhões e meio de votos). Vale lembrar que Lula superou Brizola (o terceiro colocado) por apenas 0,6 ponto percentual (menos de quinhentos mil votos). Comparto a opinião de Singer de que a impopularidade de Sarney e de seu partido influenciaram negativamente os candidatos centristas, fazendo com que o desempenho eleitoral destes fosse sofrível (somados, os centristas tiveram apenas 20% dos votos). Assim, a eleição caminharia para o segundo turno polarizado entre esquerda (que conseguira 32,7% dos votos, com todos os candidatos somados) e direita (38% dos votos somados). Seria, portanto, o centro o fiel da balança do segundo turno, polarizado entre direita (Collor) e esquerda (Lula). Deu a direita.
A mesma direita que tanto atraiu o grupo dissidente do PMDB do Ceará, que acabou por ingressar no PSDB (centro). Àquela época, sei que nem todos lembram, Ciro, Tasso e Sérgio Machado (secretário de Governo de Tasso) eram os mais entusiastas para uma adesão ao PRN de Collor. Dezenas de reuniões foram feitas por Sérgio (no auditório da Secretaria de Planejamento, no Cambeba) com as ditas bases políticas para debater o apoio ao candidato alagoano. Uma delas (e a mais importante) foi realizada no hotel Esplanada (hoje fechado), reunindo lideranças de todo o Estado do Ceará e foi lá que Ciro e Tasso fizeram os discursos mais inflamados pró-Collor. Ciro extrapolou sua pomposa retórica para concluir fazendo uma convocação: “...agora é hora de collorir”. Choveram aplausos. A adesão só não deu certo por causa de um estranho (e até hoje não explicado) episódio ocorrido em Brasília, momentos antes da reunião em que o grupo do Ceará assinaria a ficha de ingresso no PRN (ou melhor, formalizaria a adesão à candidatura Collor de Mello). Alguns dizem que Collor não aceitou as exigências do grupo. Outros dizem que tudo ocorreu porque Collor, para evitar exigências pesadas, teria deixado vazar à imprensa o local, a hora e o nome das pessoas que iriam ingressar no partido. O encontro seria o momento da adesão e também o momento em que combinariam a versão à imprensa. Já havia, no bolso do paletó de Tasso, uma carta, com aprovo de todos, com os termos da adesão e a versão que dariam à imprensa. O vazamento irritou o grupo, que recuou e não concretizou a adesão oportunista. O silêncio caiu sobre o episódio e dias depois o grupo assinou ficha no PSDB e apoiou a candidatura de Mário Covas.
(Veja na sexta-feira a seqüência da história política da família Ferreira Gomes: Capítulo V – A MORTE PELA BOCA – segundo ato).
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[1] As eleições de 89 foram “laboratório” e marco inaugural do fenômeno do marketing político em eleições presidenciais no Brasil (o que não contestado por nenhum estudioso de comunicação ou de Ciência Política), seguindo o modelo norte-americano, ainda que com as diferenças da legislação eleitoral. Por isso, é importante destacar o papel que os meios de comunicação de massa – particularmente a televisão – passaram a ter em uma campanha eleitoral presidencial. Em um país de dimensões continentais, em muitas cidades e regiões, o horário eleitoral gratuito ainda é a única forma de contato entre o candidato e a população.
[2] André Singer, em seu trabalho “Ideologia e Economia na Decisão de 1994”, apresentado no XXII Encontro Nacional da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais – ANPOCS, Caxambu-MG, 27 a 31 de Outubro de 1998.
A História Política de uma família - capítulo IV
A MORTE PELA BOCA
(primeiro ato)
As duas eleições do período pós-ditadura (1989 e 1994) ocorrem em clima de ambiente midiático[1]. Chega a terceira eleição (1998) e este terceiro experimento eleitoral acontece em ambiente semelhante, mas com algumas diferenças marcantes. Seria, como apontam alguns pesquisadores, o momento em que a transição parecia ter se completado. A primeira eleição pós-democratização foi marcada pela inovação e a estratégia de mídia, pelo entusiasmo, pela motivação depois de 25 anos sem votar em presidente. O pleito foi “diluído” em mais de vinte candidatos. Um dado importante é que todos se colocavam em oposição ao governo que se encerrava, de José Sarney (PMDB). Nada chega a ser surpreendente: o fracasso econômico do Plano Cruzado, com altas taxas de inflação e pífios índices de crescimento econômico, fazia com que 68% da população considerassem o governo Sarney como ruim ou péssimo (Pesquisa Datafolha de setembro de 89).
Só para marcar aquele momento importante do nosso processo de redemocratização, utilizamos a clivagem ideológica adotada por Singer[2] para agrupar os candidatos mais relevantes: esquerda: Lula, do PT; Leonel Brizola, do Partido Democrático Trabalhista; e Roberto Freire, do Partido Comunista Brasileiro. Centro: Mário Covas, do Partido da Social Democracia Brasileira (fundado a partir de uma cisão do PMDB em 1988); Ulysses Guimarães, do PMDB; e Guilherme Afif Domingos, do Partido Liberal. Direita: Paulo Maluf, do PDS; Aureliano Chaves, do Partido da Frente Liberal (fundado a partir de uma cisão do PDS em 1985); Ronaldo Caiado, da União Democrática Ruralista; e Fernando Collor de Mello, do Partido da Reconstrução Nacional. Os outros candidatos somados obtiveram menos de 3% dos votos válidos. O resultado final do primeiro turno consagrou Collor em primeiro lugar, com 30,4% dos votos válidos (mais de vinte milhões e meio de votos), e Lula em segundo, com 17,1% dos votos válidos (mais de onze milhões e meio de votos). Vale lembrar que Lula superou Brizola (o terceiro colocado) por apenas 0,6 ponto percentual (menos de quinhentos mil votos). Comparto a opinião de Singer de que a impopularidade de Sarney e de seu partido influenciaram negativamente os candidatos centristas, fazendo com que o desempenho eleitoral destes fosse sofrível (somados, os centristas tiveram apenas 20% dos votos). Assim, a eleição caminharia para o segundo turno polarizado entre esquerda (que conseguira 32,7% dos votos, com todos os candidatos somados) e direita (38% dos votos somados). Seria, portanto, o centro o fiel da balança do segundo turno, polarizado entre direita (Collor) e esquerda (Lula). Deu a direita.
A mesma direita que tanto atraiu o grupo dissidente do PMDB do Ceará, que acabou por ingressar no PSDB (centro). Àquela época, sei que nem todos lembram, Ciro, Tasso e Sérgio Machado (secretário de Governo de Tasso) eram os mais entusiastas para uma adesão ao PRN de Collor. Dezenas de reuniões foram feitas por Sérgio (no auditório da Secretaria de Planejamento, no Cambeba) com as ditas bases políticas para debater o apoio ao candidato alagoano. Uma delas (e a mais importante) foi realizada no hotel Esplanada (hoje fechado), reunindo lideranças de todo o Estado do Ceará e foi lá que Ciro e Tasso fizeram os discursos mais inflamados pró-Collor. Ciro extrapolou sua pomposa retórica para concluir fazendo uma convocação: “...agora é hora de collorir”. Choveram aplausos. A adesão só não deu certo por causa de um estranho (e até hoje não explicado) episódio ocorrido em Brasília, momentos antes da reunião em que o grupo do Ceará assinaria a ficha de ingresso no PRN (ou melhor, formalizaria a adesão à candidatura Collor de Mello). Alguns dizem que Collor não aceitou as exigências do grupo. Outros dizem que tudo ocorreu porque Collor, para evitar exigências pesadas, teria deixado vazar à imprensa o local, a hora e o nome das pessoas que iriam ingressar no partido. O encontro seria o momento da adesão e também o momento em que combinariam a versão à imprensa. Já havia, no bolso do paletó de Tasso, uma carta, com aprovo de todos, com os termos da adesão e a versão que dariam à imprensa. O vazamento irritou o grupo, que recuou e não concretizou a adesão oportunista. O silêncio caiu sobre o episódio e dias depois o grupo assinou ficha no PSDB e apoiou a candidatura de Mário Covas.
(Veja na sexta-feira a seqüência da história política da família Ferreira Gomes: Capítulo V – A MORTE PELA BOCA – segundo ato).
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[1] As eleições de 89 foram “laboratório” e marco inaugural do fenômeno do marketing político em eleições presidenciais no Brasil (o que não contestado por nenhum estudioso de comunicação ou de Ciência Política), seguindo o modelo norte-americano, ainda que com as diferenças da legislação eleitoral. Por isso, é importante destacar o papel que os meios de comunicação de massa – particularmente a televisão – passaram a ter em uma campanha eleitoral presidencial. Em um país de dimensões continentais, em muitas cidades e regiões, o horário eleitoral gratuito ainda é a única forma de contato entre o candidato e a população.
[2] André Singer, em seu trabalho “Ideologia e Economia na Decisão de 1994”, apresentado no XXII Encontro Nacional da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais – ANPOCS, Caxambu-MG, 27 a 31 de Outubro de 1998.
Pesquisa Avalia Situação de Lula
O Jornal o Estado de São Paulo publicou no último domingo os dados de uma pesquisa nacional do Instituto IPSOS avaliando a situação do Governo Lula. É preciso atentar, ao ler os resultados, que as pesquisas sempre exigem muito cuidado na análise. Há sempre uma tendência do leitor não atento de captar somente os números, sem perceber os detalhes no cotejamento dos números nas diversas situações. Há situações que funcionam como variáveis e que podem, portanto, afetar a análise, como, por exemplo, os diversos escândalos divulgados. Veja, a seguir, alguns pontos da pesquisa, com base na análise feita pelo ex-blog do César Maia:
1. O bolsa-família é o programa do governo Lula que mais consenso produz, cruzando as respostas por quaisquer perfis do eleitor. A resposta à pergunta ("o que Lula fez de bom no governo?") que dá ao bolsa-família 43%, a estabilidade econômica 20%, a ajuda aos pobres (que poderia ser somada ao bolsa-família), 10% mostra exatamente isso. Mas isso não quer dizer que seja a principal razão de voto.
2. Estudos econométricos de causalidade mostram que a razão hipotética de se votar em Lula hoje é a questão econômica, estabilidade e crescimento. Por isso não há qualquer contradição do eleitor quando responde sobre o presidente responsável pela estabilidade econômica quando Lula tem 67% e FHC 7%. Essa resposta apenas ratifica o que as razões de causalidade demonstram. O ponto não é a bolsa-família, mas a economia. A boa economia de FHC terminou há 10 anos atrás, na crise de setembro de 1997[1].
3. Um artigo publicado pelo historiador e politólogo argentino, Natalio Botana, uns meses atrás (que o ex-blog do César Maia reproduziu um resumo), mostrava o paradoxal na América Latina entre economia e democracia. Ou seja, na América Latina, quanto melhor a economia mais autoritários ficam os governos. É a gente vê exemplos disso em nossa AL, principalmente na petrodemocracia venezuelana. Com Lula e PT é exatamente assim: o executivo manda e o legislativo se submete. O caso Renan é exemplo disso. E é isso o que o executivo quer, aqui e alhures. Um quadro econômico inverso, certamente produziria não só a queda da avaliação de Lula, como a fragilização do executivo em relação ao legislativo e aos políticos.
4. Por outro lado, a fragilização do legislativo leva o eleitor a estar cada vez mais desligado da representação política dos partidos e mais ligado aos personagens. Por isso (e por sorte para eles) não existe PT, mas Lula. O problema é que o desenho do personagem Lula, não é clonável entre os políticos destacados hoje. Nenhum deles do PT, ou fora dele é da família Lula. Ao contrário, Serra, Aécio e Alckmin, são da família FHC.
5. Desta forma a eleição presidencial de 2010, parte de duas situações: a) não há personagem sucessor; b) depende da dinâmica econômica daqui para frente. Quando surge no horizonte um crescimento de 5%, o governo vai ao orgasmo, pois sabe que é esse seu pilar de sustentação e de transferência de votos. Mas quando a crise "hipotecária" sinaliza nuvens carregadas para a economia e os índices de preços pululam, todo este quadro se desfaz.
6. E se for assim, teremos uma eleição lotérica de partida, na medida em que a memória econômica negativa passará a ser de FHC e Lula e não só de FHC, segundo governo. Esta característica estimulará o lançamento de muitas candidaturas, e um quadro eleitoral imprevisível, onde os perdedores no primeiro turno poderão ser decisivos no segundo.
7. Desta forma, a pesquisa que se tem que ficar atento é a projeção de cenários para o futuro. É mais trabalhoso e sofisticado do que pesquisas sobre o que se pensa hoje. Os bons economistas sem partidos sabem como fazer. E a metodologia -que alguns chamam de quali-quantis- está a disposição de todos os interessados de forma a combinar projeção de cenários com os fatores de peso.
1. O bolsa-família é o programa do governo Lula que mais consenso produz, cruzando as respostas por quaisquer perfis do eleitor. A resposta à pergunta ("o que Lula fez de bom no governo?") que dá ao bolsa-família 43%, a estabilidade econômica 20%, a ajuda aos pobres (que poderia ser somada ao bolsa-família), 10% mostra exatamente isso. Mas isso não quer dizer que seja a principal razão de voto.
2. Estudos econométricos de causalidade mostram que a razão hipotética de se votar em Lula hoje é a questão econômica, estabilidade e crescimento. Por isso não há qualquer contradição do eleitor quando responde sobre o presidente responsável pela estabilidade econômica quando Lula tem 67% e FHC 7%. Essa resposta apenas ratifica o que as razões de causalidade demonstram. O ponto não é a bolsa-família, mas a economia. A boa economia de FHC terminou há 10 anos atrás, na crise de setembro de 1997[1].
3. Um artigo publicado pelo historiador e politólogo argentino, Natalio Botana, uns meses atrás (que o ex-blog do César Maia reproduziu um resumo), mostrava o paradoxal na América Latina entre economia e democracia. Ou seja, na América Latina, quanto melhor a economia mais autoritários ficam os governos. É a gente vê exemplos disso em nossa AL, principalmente na petrodemocracia venezuelana. Com Lula e PT é exatamente assim: o executivo manda e o legislativo se submete. O caso Renan é exemplo disso. E é isso o que o executivo quer, aqui e alhures. Um quadro econômico inverso, certamente produziria não só a queda da avaliação de Lula, como a fragilização do executivo em relação ao legislativo e aos políticos.
4. Por outro lado, a fragilização do legislativo leva o eleitor a estar cada vez mais desligado da representação política dos partidos e mais ligado aos personagens. Por isso (e por sorte para eles) não existe PT, mas Lula. O problema é que o desenho do personagem Lula, não é clonável entre os políticos destacados hoje. Nenhum deles do PT, ou fora dele é da família Lula. Ao contrário, Serra, Aécio e Alckmin, são da família FHC.
5. Desta forma a eleição presidencial de 2010, parte de duas situações: a) não há personagem sucessor; b) depende da dinâmica econômica daqui para frente. Quando surge no horizonte um crescimento de 5%, o governo vai ao orgasmo, pois sabe que é esse seu pilar de sustentação e de transferência de votos. Mas quando a crise "hipotecária" sinaliza nuvens carregadas para a economia e os índices de preços pululam, todo este quadro se desfaz.
6. E se for assim, teremos uma eleição lotérica de partida, na medida em que a memória econômica negativa passará a ser de FHC e Lula e não só de FHC, segundo governo. Esta característica estimulará o lançamento de muitas candidaturas, e um quadro eleitoral imprevisível, onde os perdedores no primeiro turno poderão ser decisivos no segundo.
7. Desta forma, a pesquisa que se tem que ficar atento é a projeção de cenários para o futuro. É mais trabalhoso e sofisticado do que pesquisas sobre o que se pensa hoje. Os bons economistas sem partidos sabem como fazer. E a metodologia -que alguns chamam de quali-quantis- está a disposição de todos os interessados de forma a combinar projeção de cenários com os fatores de peso.
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[1] A crise do final da década de 90 não foi comentada ou analisada em sua profundidade, mas foi detectada por diversos estudiosos da economia política, como, por exemplo, o politólogo e economista espanhol Ludolfo Paramio, que publicou o trabalho “Perspectivas de la izquierda en América Latina” logo depois da primeira eleição de Lula.
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