terça-feira, 31 de janeiro de 2012

CORRUPÇÃO, O MAL ORIGINAL


A CORRUPÇÃO - TERCEIRO CAPÍTULO
 
No terceiro capítulo da série de quatro artigos sobre corrupção, abordaremos que a propensão em praticar atos de corrupção é fortemente cultural e reflete as normais sociais do país em que se vive. A história brasileira apresenta vários momentos de degradação, servilismo e personalismo na vida política, que têm sido o alimento da corrupção material e política.
 
III - POLITIZAR A CORRUPÇÃO NÃO AJUDA
 
Cada um a seu modo, os escritores Euclides da Cunha (1866-1909) e Manoel Bomfim (1868-1932) teceram algumas reflexões que oferecem referenciais para entender o processo social que hoje se vivencia. Seriam os impedimentos, os vícios, as dificuldades, as impossibilidades oriundas dos homens ou das instituições?  Euclides da Cunha respondia: dos dois. Tanto aqueles primeiros são portadores de ações negadoras de mudanças redefinidoras da vida social quanto estas segundas. Em os Sertões, sua obra maior, ele trata do assunto, mas é em Contrastes e confrontos (1966) que ele afirma que a cultura política prevalecente no país se incumbia de internalizar em cada indivíduo os vícios de um modo de agir que levava à perpetuação das dificuldades políticas brasileiras. Ele atribuía a responsabilidade pela contínua decadência política e pela eterna reprodução de um padrão de domínio excludente a dois fatores: aos valores conciliadores e coibidores da publicização das diferenças e dos antagonismos e, também, ao sistema representativo (de coalização) que vigorava (e vigora) no país.

Manoel Bomfim defendia que a prática da conciliação levava a uma co-responsabilidade dos setores preponderantes na cristalização de uma tradição conservadora que tendia a neutralizar qualquer mudança voltada para os interesses coletivos. "Nessas condições, as constantes ações voltadas para as práticas conciliadoras teriam plantado todas as sementes de um modo de operar a vida política em que se torna regra transigir, dissimular, abjurar, desprezar princípios e sacrificar a pátria por motivos pessoais” (BOMFIM, 1931, p.142).

É bom compreender que politizar a luta contra a corrupção, de qualquer dos lados – dos acusadores e dos acusados – não traz qualquer contribuição positiva. Ao contrário. Só consolida negativamente na sociedade a percepção de que nossa cultura é essa mesmo. Corrupção é caso de polícia e assim deve ser tratada. Por isso dói muito quando se torna corrente o discurso tolerante a figuras como Carlos Lupi, Orlando Silva e Mário Negromonte, da mesma forma que aborrece ver José Sarney como presidente do Senado, Romero Jucá como líder no Congresso e Jáder Barbalho tomar posse, ainda que a lei dura (às vezes) assim o determine. É certo que a corrupção que hoje existe no governo federal, nos estados e municípios deste Brasil varonil existiu também no passado. Mas, nesses tempos de incertezas, como relata o escritor Robert Castel (As metamorfoses da questão social. Uma crônica do salário, p.21 e ss, editora Vozes), em que o passado se esquiva e o futuro é indeterminado, seria preciso mobilizar nossa memória para compreender o presente. Mas, será possível apreender, evitando uma grande volta, a especificidade do que acontece "hic et nunc" (aqui; nestas circunstâncias)? É possível.

A corrupção pode até ser maior agora que no passado, não levando em conta a questão da visibilidade que hoje se tem. Se alguns órgãos de imprensa omitiram ou minimizaram no passado, ainda hoje alguns ainda omitem, principalmente nos estados. Mas o que deprime é querer esconder a corrupção, ou justificá-la, através de sofismas como a governabilidade. A proposital barafunda é tanta que se perde a noção do que é realmente corrupção, e de quem é culpado ou inocente. Nem todos são culpados, mas inocentes são poucos. Estudiosos do assunto como o psicólogo Robert Kurzban, da Universidade da Pensilvânia, e Banjamin Olken, do Instituto Tecnológico de Massachusetts, concluíram estudos e pesquisas dizendo que só a rejeição social, do ostracismo à prisão, a permanente fiscalização e auditorias reduzem a corrupção. Por aqui, temos de suportar que, após rápido mergulho, corruptos circulem desenvoltos pelos salões, que voltem a disputar eleições , ganhem funções públicas e até sejam eleitos para a Academia Brasileira de Letras;  que usem o dinheiro salvo da simulada investigação para comprar apartamentos luxuosos até em outros países. Como esperar justiça se um servidor do próprio Judiciário (Magistrado ou funcionário) movimenta milhões em sua conta pessoal de assalariado e se torna tão difícil só identificá-lo?

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

O TRAÇADO BARALHO DA SUCESSÃO


Cid Gomes chegou barbado à TV. Extirpou-a no camarim.


Vale uma abordagem complementar sobre conteúdo da entrevista de Cid Gomes (governador do Ceará) na TV O Povo, que está sendo vista na Internet. O governador tratou dos pontos principais da crise e até de política. O governador confessou que vai escrever um livro de memórias, quando contará todo o sentimento que carrega, inconfessado, no coração sobre a greve dos policiais militares e outros. Confessou, contraditoriamente, que a grande falha foi na comunicação, mas não admitiu que deveria ter tido uma presença maior na mídia na crise. "O que eu iria falar? Eu não estava seguro...". Ora, ora, o boato predomina onde não há informações.

Sobre a sucessão de Fortaleza disse que se depender dele (e só depende) o PSB não terá candidato próprio. Sofismou ao dizer que não manda no partido e que a eleição será tratada pelo partido em nível municipal. Foi uma resposta ao modelo Paulo Lustosa, ou seja, "papo-furado". O partido (PSB) foi tomado, no seu núcleo municipal, da família Novaes (Sérgio e a irmã Eliane, deputada estadual), que mantinha uma dominação favorável a Luizianne. Agora, a dominação é plena e nenhuma decisão sairá sem passar pelo governador. O boi sempre sabe onde fura a cerca. O PSB não terá candidato próprio, mas para apoiar o candidato petista Cid Gomes não perdeu tempo em colocar difíceis condições: primeiro, consiga fazer aliança partidária, a mais ampla possível (PMDB, PC do B, PSB etc.), e, segundo, que, fundamentalmente, no momento da campanha, seja um nome que inspire na população confiança”. Será que é o retrato de alguém que ele já pensa?
 
A prefeita petistas Luizianne Lins ganhou a batalha, mas não significa que ganhou a guerra. Cid, ao impor tais condições para apoiar o candidato petista, quer trazer a indicação para dentro do território que ele domina na legenda petista. Quer dizer, Luizianne pode vencer, mas não levar. Cid alegou não ter sido comunicado oficialmente das recentes decisões do PT e, por isso, não quis comentar se algum dos cinco nomes que estão na nova lista petista se encaixaria nesses critérios: Acrísio Sena, Artur Bruno, Camilo Santana, Elmano de Freitas e Guilherme Sampaio. Correndo por fora, mas fortalecido, está o senador José Pimentel, o come quieto, que tem um olho no gato e o outro no peixe.

A ternura tomou conta do governador cearense quando ele abordou a sucessão de Maracanaú, que é administrado por Roberto Pessoa (PR), maior opositor do clã governista, melhor dizendo, a única. Revelou amor aos maracanauenses, dos quais se considerou devedor. Até citou, tirando de sua vasta literatura de conhecimento, trecho do livro "O pequeno Príncipe (de Antoine de Saint-Exupéry) -"Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas"-, e prometeu participar ativamente da campanha de sucessão de Maracanaú. O que se pode entender é que ele vai se envolver pessoalmente na eleição de lá, mas até do que na daqui. Só está ruim porque os nomes que ele anunciou já estar trabalhando não são bons: Julio César, que foi prefeito três vezes e bem conhecido do povo, e Edson Silva, o cíclico radialista de raso conteúdo.

Veja, completa e com melhor qualidade, a íntegra do entrevista:

http://www.opovo.com.br/app/fortaleza/2012/01/25/noticiasfortaleza,2773232/assista-a-entrevista-de-cid-gomes-na-tv-o-povo.shtml

domingo, 22 de janeiro de 2012


No segundo capítulo da série de quatro artigos sobre corrupção, abordaremos que a propensão em praticar atos de corrupção é fortemente cultural e reflete as normais sociais do país em que se vive. A história brasileira apresenta vários momentos degradação, servilismo e personalismo na vida política, que têm sido o alimento da corrupção material e política. Durante o reinado carioca de D. João VI, tornou-se popular uma quadrinha que dizia:
 
"Quem furta pouco é ladrão,
quem furta muito é barão,
quem mais furta e mais esconde
passa de barão a visconde".
 
O alvo da quadra era o tesoureiro-mor do reino, Francisco Bento Maria Targini, visconde de São Lourenço, arrecadador de rendas da Província do Ceará, que foi para o Rio de Janeiro, com a corte em 1807. Era conhecida a história que dizia respeito à compra de mantas para o Exército que Targini fizera a um fornecedor inglês. O hábil homem público teria mandado dividir cada uma das peças ao meio, revendendo-as depois ao governo brasileiro pelo dobro do preço original. José da Silva Lisboa, o visconde de Cairu, em sua "História dos Principais Sucessos Políticos do Brasil", disse que Targini "... fazia ostentação de opulência mui superior ao ordenado do seu emprego". Daí outra quadrinha que ficou famosa:
 
"Furta Azevedo no Paço
Targini rouba no erário
e o povo aflito carrega
pesada cruz ao calvário".
 
Faz lembrar alguns casos denunciados mais recentemente?






II - A CORRUPÇÃO É QUASE CONTAGIOSA
 
Defende o escritor Calil Simão (Improbidade Administrativa – Teoria e Prática. Leme: J.H. Mizuno, 2011, p. 10 e ss) que não existe corrupção política sem haver corrupção social. Ele aporta, sem se importar com os contraditórios, que, primeiro, a sociedade se corrompe para, posteriormente, corromper o Estado. Ensina ainda que a corrupção social se apresenta sempre que os indivíduos não possuem desinteresse individual, ou seja, quando não conseguem sacrificar um interesse particular em prol do interesse coletivo. O suíço Samuel Bendahan (has a PhD in economics and specializes in organizational behaviour, leadership and governance), do Instituto Federal de Tecnologia da Suíça, através de uma pesquisa, chegou a uma conclusão preocupante: se somos honestos na maior parte do tempo, isso pode se dever apenas à falta de oportunidade para enganar. Ou seja, a oportunidade leva à corrupção.
 
A pesquisa de Bendahan, relatada por Laura Spinney na revista New Scientist, mostrou que ao se iniciar um jogo para testar os participantes, apenas 4% deles justificava o roubo. Na quinta rodada, 20% dos participantes já roubavam. Na décima, eram 45%. No mesmo artigo, é relatada a pesquisa de Joris Lammers, da Universidade de Tilburg, na Holanda e de Adam Galinsky, da Universidade do Noroeste de Chicago. Eles concluíram que as pessoas com poder tendem a enganar mais, mas são mais duras do que os que não têm poder ao condenarem atos imorais. Os que têm mais poder são mais hipócritas, considerando seus atos corruptos menos condenáveis do que os praticados por outras pessoas. Para Lammers, o poder cria uma miopia moral, pois além de dar mais oportunidade aos que tendem à corrupção, também influencia a forma de pensar. Lammers compara os efeitos provocados pelo poder aos do álcool: “Reduz o alcance da visão e também leva a uma conduta que pode se chamar de hiperautoconfiança ou hiperfirmeza”.
 
Decorre daí situações como a da célebre frase do famoso vídeo sobre a negociação (de desapropriações) da Linha Leste do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT):

        - Então, vamos ver se a gente faz um rolo aí... Eu desaproprio e depois a gente vê...

Onde existe uma cultura de corrupção, ela é quase contagiosa. Foi a conclusão a que chegou a pesquisadoras Danila Serra, da Universidade Estadual da Flórida. Outra pesquisadora, Abigail Barr, da Universidade de Oxford, e Danila Serra fizeram um estudo com estudantes de 34 países com diferentes índices de corrupção, de acordo com a Transparência Internacional, e concluíram que a propensão em praticar atos de corrupção é fortemente cultural e reflete as normais sociais do país em que se vive. Por isso uma pessoa originalmente honesta não está imune à corrupção.

sábado, 21 de janeiro de 2012

O TAMANHO DA RETALIAÇÃO


O polímata Ciro Gomes (PSB-CE), irmão do governador Cid Gomes, presidente do PSB do Ceará, deu o tom da retaliação que os policiais militares do Ceará e o pessoal do Corpo de Bombeiros devem esperar. Em entrevista o polímata abriu o verbo. “Esses marginais fardados, covardes que são, usaram como escudo crianças e mulheres, e o Cid (o irmão governador) tomou uma decisão que qualquer pessoa pode condenar, mas que é decisão duríssima de tomar. Ele preferiu ceder a carregar na consciência o cadáver de uma criança”. Coitadinho! Depois vão rir à farta em uma confortável habitação em Nova Iorque.

Ciro Gomes deveria emitir seus impropérios contra os auxiliares do governo, que enganaram seu irmão, demonstrando inegável incompetência para trabalhar nos momentos de crise. Os "covardes marginas fardados", conforme Ciro Gomes, são todos os contingentes da PM e do Corpo de Bombeiros, menos, é claro, o comandante geral e o secretário de segurança e uns poucos gatos-pingados que ocupam postos na Casa Militar do Governo, ou em outros órgãos da administração, pelo que são bem aquinhoados.